Leonard Cohen: o poeta como herói - Parte I

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O primeiro canadense a emergir como a principal figura no mundo do lirismo pop, Cohen é visitado por um crítico, por um amigo e por ele mesmo.

Por Jack Batten | Tradução de Diego Zerwes

Há uma imensa, importante e barulhenta multidão de admiradores de Leonard Cohen por aí que não se importa, ou talvez nem saiba, com o fato de ele ter ganhado o Prêmio Governor-General de 1969 pela sua poesia. Eles reverenciam e adoram Cohen como poeta, mas poucos deles estão entre os quinze mil canadenses e mais milhares de americanos que adquiriram seu Selected Poems este ano e deram o livro o status de estar entre os Mais Vendidos. O conceito que trazem sobre a poesia de Cohen, na verdade de toda a poesia, e do ambiente no qual ela deveria naturalmente florear, dificilmente bate com a visão convencional de puro entretenimento da maioria da Lit. Ing. e dos que pretendem se tornar poetas em universidades do leste.

A peculiar multidão de Cohen é constituída, na maioria, por crianças, fãs de hard-core e rock n’ roll, de folkies, hippies e groupies, de pessoas jovens que usam cabelos compridos e roupas que são, no comum adjetivo que eles mesmo usam, loucas. O Cohen deles, não o das páginas impressas, é o dos álbuns, e por exegeses do seu trabalho, eles olham, não para as periódicos de literatura, mas para uma revista de pop-music de San Francisco chamada Rolling Stone. Para eles, Leonard Cohen não é o notável poeta canadense, nem o respeitado novelista canadense – ele é algo mais grandioso: Leonard Cohen, a pedra-perfeita (para citar o jargão) o cantor e compositor de folk-rock canadense.

As crianças fizeram de Cohen um pop star e suas canções clássicos do pop. Eles reconheceram sua genialidade durante sua primeira importante aparição, no Newport Folk Festival de 1967, quando Cohen roubou a plateia de Joan Baez e Pete Seeger e de outras estrelas consagradas. Quando ele lançou seu primeiro álbum, Songs of Leonard Cohen, pela Columbia, pouco depois do Festival, as crianças o compraram, e em 1969 ainda compram na média de três mil cópias por semana na América do Norte. Agora estão enviando seu segundo álbum, Songs from a Room, lançado no início deste verão, para a Gold Record, símbolo de milhões de vendas no mercado de gravações.

Leonard Cohen na Ilha de Wight

Leonard Cohen na Ilha de Wight

O que talvez seja mais significante é que esta jovem multidão se apaixonou pela “poesia” de Cohen – para eles, é claro, todas as letras de folk e rock são tão poéticas quanto é uma antologia para calouros que estudam a língua inglesa. Eles discutem, analisam e agonizam com as imagens nas músicas de Cohen, especialmente com um verso assustador de Suzanne: “Pois você acariciou mentalmente o corpo perfeito dela”. Eles se importam com o verso, se importam com Cohen. E no julgamento final de suas prioridades, eles listam Cohen junto com outros grandes poetas de hoje: Bob Dylan, John Lennon, Jim Morrison do The Doors, e Pete Townshend do The Who.

Os usuais guardiões da poesia – professores universitários, críticos literários, editores de periódicos – perceberam tardiamente que essas crianças poderiam ter alguma razão, que talvez as letras do rock são poesia. Um escritor da Partisan Review comparou recentemente as canções dos Beatles com Shakespeare,  e na Universidade de Toronto pelo menos um professor traz canções de John Lennon e Mick Jagger nas aulas do primeiro ano, na matéria de poesia moderna. Na New School for Social Research, em New York, entretanto, se ensina que as letras de rock tem crucial participação de um curso chamado Poesia Expandida.

Dificilmente seja verdade, é claro, que todas as letras de rock sejam consistentemente poéticas ou até mesmo literatura. De fato, a maioria das músicas do Top 40 são puras porcarias, tão imbecis quanto qualquer coisa vinda da era Rock Around the Clock  de quinze anos atrás. Até mesmo os compositores “sérios”, sem excluir Dylan, são capazes de evitar eventualmente pretensiosos e terríveis ingredientes literários. Em seguida, também, todas canções pop, boas e ruins, têm a soberba vantagem simplesmente existirem enquanto canções. Uma letra que pode, caso contrário, parecer chata e sem sentido lógico numa página impressa, pode alcançar, ao menos, um significado emocional vindo da música e da energia rítmica que a acompanha.

Ainda, para todas qualificações, as melhores letras de rock da última meia dúzia de anos constituem uma poderosa, imediata, vívida e colorida forma poética. Elas lidam com uma surpreendente gama de tópicos – os prazeres e riscos do uso de drogas, sexo explícito, revolução (muito de bom gosto no momento), infidelidade, pobreza, política – e transmite uma extensa e sem precedentes, pelo menos para a pop music, mudança de humor e emoções: alienação, medo, vazio.

Talvez as letras mais efetivas deixem de lado assuntos específicos com o objetivo de refletir sobre a essência e a percepção do mundo de hoje, para dizer a todos nós “onde ela se encontra”. John Lennon, em seus esforços de projetar o caos do fragmentado e deslocado anos 60, trabalhou por meio do surrealismo (I Am A Walrus), comentário social (Eleanor Rigby), livre fantasia (Strawberry Fields Forever) e enfeitado, o escapismo da droga (Lucy in the Sky With Diamonds). As imagens de Lennon são invariavelmente selvagens e cintilantes, e apesar de nem sempre ter senso narrativo, elas capturam quase que exatamente o rápido e confuso vórtice do nosso mundo.

Dylan, outro mestre da poesia da canção, assim como Jim Morrison, Paul Simon (do Simon and Garfunkel), Peter Townshed, Mick Jagger (dos Rolling Stones) e poucos outros compartilham com as preocupações e métodos de Lennon, mas Leonard Cohen cobre uma parte levemente diferente da cena da pop music. Cohen explora e conta sobre um mundo um pouco menor que os outros, um lugar onde as pessoas, efetivamente, se apaixonam mas não são capazes de manter o amor. Homem e mulher, nas canções de Cohen, estão sempre se separando, ao menos fisicamente. Contudo, não estão necessariamente experimentando uma separação na relação amorosa; antes, estão sofrendo uma falha no comprometimento. E isso, em 1969, é um assunto que intriga todas as crianças.

Alice Freeman conheceu Leonard Cohen perto das 8 horas da manhã, num quarto do Motel Four Seasons, em Toronto. O encontro aconteceu seis anos atrás, quando Alice tinha 18 anos e estava na universidade; ela era tão bela e ferozmente inteligente como é agora, mas tinha também um sonhador, romântico vestígio que hoje prefere negar. Assim como muitas outras esplendorosas jovens garotas, que eram a maior parte da audiência de Cohen, ela conseguiu falar com ele com um simples telefonema, e quando ele disse (como invariavelmente acontece) sim, venha conversar, ela já se encontrava batendo na porta de seu quarto de hotel e se sentindo muito confortável com isso.

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Um cigarro com Coca-Cola

“Lembro de ficar olhando seus pés por um longo tempo, até que ele me convidasse para entrar”, diz Alice sobre o primeiro encontro. “Ele estava apenas de meia e seus pés eram muito atraentes, e aí eu reparei que ele não era tão alto quanto eu esperava”. Ele representa ser mais alto do que é. Ouvi outras mulheres dizerem o mesmo.

“Fiquei lá por duas horas e conversamos sobre absolutamente tudo. Foi um diálogo terrivelmente intenso, fumei cerca de dois maços de cigarro enquanto conversávamos. Ao lado dele tinha um violão. Eu tinha lido A brincadeira favorita e The Spice Box of Earth, eu o conhecia como romancista e poeta, não como músico ou compositor. Em certo ponto, ele pegou o violão e declamou um poema que havia musicado – era uma do Spice-box que começava ‘Hold me hard light, soft light hold me’ – foi um momento repleto de beleza.

 “Na maioria do tempo, naquela primeira vez, conversamos. Você tem que estar bem alerta com Leonard porque ele muda de assunto toda hora. Sua mente vai e vem em assuntos e tempos e até mesmo no tipo de linguagem que está pensando. Ele é muito intenso, e me lembro que quando fui pra casa, depois que saí do motel, deitei na cama e dormi o resto do dia”.

Alice se encontrou, ligou e escreveu para Cohen muitas vezes depois de terem se encontrado. Uma vez, ela enviou uma carta a ele aos cuidados da General Post Office, Atenas, Grécia, que o encontrou. Ela o viu em um bar em New York, perto do Chelsea Hotel, e ela tomou café em dezenas de locais diferentes de Toronto. E certa vez ela telefonou para um apartamento mobiliado em Montreal, onde Cohen estava morando. Marianne atendeu; ela era a amável loira norueguesa com quem Cohen viveu junto por anos e, Alice lembra, “sua voz era a de um anjo – na verdade, quando ela falava, você conseguia ouvir pequenos sinos a badalar”.

Ela foi, então, ao concerto na York University há dois anos, um pouco antes do seu primeiro álbum ser lançado.

“O que ele fez, ele hipnotizou as quinhentas pessoas no salão”, disse Alice. “Ele entrou no palco e acendeu incenso e dirigiu o olhar à plateia e disse bem baixinho, ‘A pessoa que sente mais dor aqui sou eu’. Então ele começou com um canto suave e deixou todo mundo em transe. Depois disso, ele falou e leu e cantou por três horas e cada um dos espectadores o idolatrou. Aquela virou a noite de amor de Leonard Cohen.

Quando o concerto acabou, Cohen fez algo característico que tanto fascinou como incomodou Alice – ele levantou e saiu, deixando tudo para trás, seus livros, seu incenso, seu violão. Se o que ele queria era desaparecer, é possível dizer que, nesse caso, ele teve sucesso. A mulher que promoveu o concerto não conseguiu encontrá-lo para pagar a diária.

“Ele sempre fazia isso, desaparecendo e desertando das pessoas e de suas coisas”, diz Alice. “Ele está sempre sozinho, e faz a maioria das coisas vivendo dentro de sua própria cabeça. Na verdade, ele nunca vive em nenhum lugar fisicamente e sempre me pergunto onde ele se troca e o que faz com suas cuecas.

“Na verdade, ele se enxerga como um andarilho, como uma espécie de corpo que viaja pela dor. Você consegue ouvir isso nas palavras das suas músicas, e eu acho que imagem de Leonard sofrendo, em perigo, atrai muitas garotas. Eu digo, não que ele faça sexo com todas elas. Elas têm a intenção de agir como uma mãe e protegê-lo.

“Eu me preocupo com Leonard – algo do tipo, será que ele vai estar vivo até o próximo ano”?

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Cohen já deixou claro que se sente mais à vontade no brilhante, arejado, mundo da música pop do que no mais intelectual mundo da poesia.

“Sempre me senti muito diferente dos outros poetas que conheci”, ele disse uns anos atrás. “Sempre senti que, de algum modo, eles tomam um decisão contra a vida. Não quero deixar nenhum poeta para baixo, mas a maioria deles fechou um monte de portas. Sempre me senti em casa com músicos. Gosto de compor e cantar e esse tipo de coisa.

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Fazendo seu famoso tremolo.

Ele começou a tocar seu violão em 1950 quando passou o verão num acampamento socialista perto de Montreal, mas ele não se sentia atraído pelo instrumento por razões puramente musicais. Nos primeiros anos de sua adolescência, ele tendia a ser a criança gorda que ninguém gostava, e um violão pareceu ser um artifício para ganhar popularidade. “Provavelmente me ajoelhei pra fazer uma serenata a uma garota. Eu não tinha vergonha naquele tempo”.

Até os dias de hoje, sua técnica no violão sugere que essa foi uma habilidade adquirida em acampamentos e moldada em solenes reuniões de devotados à música folk, e graças a sua aptidão e, de vez em quando, espiritualidade funky, permanece tanto rudimentar quanto funcional. Então, neste quesito, ele moldou sua cantoria. Dificilmente pode se dizer que a voz de Cohen seja macia, hábil, tida como instrumento musical; muito frequentemente, na qualidade, é forte reminiscente da voz essencialmente anti-musical de Bob Dylan. Mas então, hoje, um grande número de cantores pop se parece com Dylan simplesmente porque ele foi o primeiro a perceber que você poderia ser uma voz comum e, adicionando um pitada de emoções honestamente sentidas, ao utilizar alguns truques linguísticos aperfeiçoados por velhos cantores country-and-western, ao lançar mão de inflexões familiares aos cantores negros de blues, você conseguiria criar um extraordinário estilo para cantar. Cohen seguiu uma linha parecida, adicionando um efeito com punhados de estilo de Ray Charles, o cantor e pianista negro que fez evoluir, fora o blues, o gospel e o jazz, o estilo conhecido hoje como soul. Cohen falou que durante um longo tempo ele ouviu o velho Ray Charles até os discos empenarem. E a influência de Charles é óbvia, por exemplo, na gravação da música So Long, Marianne,  especialmente no coro em seu fim, o emotivo verso melódico e o uso de vozes femininas soa como uma versão branca das cantoras de fundo de Charles, as Raelets.

Cohen provavelmente supera Dylan com sua habilidade de transmitir um certa quietudade, sedução, uma frágil emoção. “A voz de Cohen foi chamada de monótona”, escreveu Robert Christgau, corretamente, ano passado na Esquire. Robert seguiu o seu texto assim, também corretamente, “ela é também o mais extraordinário veículo para a intimidade que o novo pop já produziu”.

Parte do impacto da intimidade de Cohen é sustentando pela absoluta clareza de sua voz. Suas palavras soam como seixos jogados em um riacho – puras, limpas, aparadas, inequívocas – e sua dicção nunca deixa a desejar, uma habilidade essencial para um cantor cujas letras são tudo. Bem, talvez não sejam tudo: Richard Goldstein, em seu livro recente, The Poetry of Rock, apontou que “as canções de Cohen têm a consistência do verso moderno, mas ao contrário da poesia linear, elas estão envolvidas firmemente ao redor da espinha rítmica.

Verdadeiramente, as melhores canções de Cohen são pequenas unidades perfeitas de melodia, metro e verso, mas definitivamente a mensagem das letras contêm, para a maioria dos ouvintes de Cohen, o atrativo básico. E a mensagem é intensa, pessoal e privada, desenhada a partir da própria alma de Cohen: mais do que qualquer outro compositor, Cohen está no centro morto de quase tudo que ele canta e escreve. A maioria de suas músicas são narrativas em primeira pessoa, e quanto mais você as escuta e as absorve, mais convencido fica que se trata da autobiografia das emoções de Cohen.

Tomadas por completo, as músicas estabelecem um ferimento ambivalente, o que explica a atração das crianças. Por outro lado, Cohen canta, ama sua mulher profundamente, sexualmente, romanticamente – as ama em cada uma das maneiras concebíveis, na verdade, exceto em algum tipo de senso doméstico, monogâmico – mas por outro lado ainda, ele irá inevitavelmente as abandonar. Ele não tem escolha – ele deve abandoná-las, como deixa claro em So Long, Marianne (clique aqui para ler a tradução completa): 

Bem, você sabe que eu amo viver ao seu lado,
mas com frequência faz com que eu esqueça.
Esqueci de rezar para os anjos.
E os anjos se esqueceram de rogar por nós.

Separação, diz Cohen, não é um desastre, de qualquer modo. De fato, deixar alguém que você ama pode ser francamente um passo salutar, e ele pede que a mulher entenda esse novo modo de viver. Hey, That’s No Way To Say Goodbye fala sobre isso (clique aqui para ler a tradução completa):

Mas não falemos de amor ou correntes,
coisas que não podemos desatar,
seus olhos com tristeza são suaves,
Ei, isso não é jeito de dizer adeus.

Mas talvez tudo isso seja uma frente corajosa; talvez o legal e a bravata sobre deixar um amor para trás, seguir em frente, seja uma proteção real e dolorosa dentro da cabeça de Cohen. Talvez aquele que sofre seja ele. Ele sugere que essa pode ser a exata verdade em Bird On The Wire (clique aqui para ler a tradução completa): 

Como um bebê, natimorto
Como uma fera com seus chifres
Eu atingi
Todos aqueles que vieram a mim

Depois de um tempo tudo começa a se pôr no lugar – o privado, homem intenso, a imagem de Alice Freeman do corpo viajando em dor, a alma de Ray Charles e a voz de Bob Dylan, a urgência, a intimidade, a adoração das crianças ambivalentes. A tudo isso se acrescenta ao título. Leonard Cohen é um poeta.